IFRS 18 · CPC 51 Publicado em 24 de abril de 2026 Leitura: 12 minutos

Como se preparar para a IFRS 18 em 2026: guia técnico para controllers e CFOs

A IFRS 18 entra em vigor em 1º de janeiro de 2027 com reapresentação obrigatória do exercício de 2026. Esta é a mudança mais profunda na apresentação das demonstrações financeiras das últimas duas décadas — e não pode ser resolvida em três meses. Este guia traz o cronograma realista, o checklist de implantação e os erros mais comuns observados em projetos no Brasil.

O que é a IFRS 18 e por que ela importa

A IFRS 18 — Presentation and Disclosure in Financial Statements — foi publicada pelo IASB em abril de 2024 e substitui integralmente a IAS 1, que vigorava desde 1997. No Brasil, a norma correlata é o CPC 51, já em processo de audiência pública. A data de vigência é 1º de janeiro de 2027, com aplicação retrospectiva completa — ou seja, o exercício de 2026 deve ser reapresentado no formato novo para fins comparativos.

A mudança não altera o lucro líquido das empresas. O que muda é como esse lucro é comunicado ao mercado. E essa comunicação é tão relevante que investidores, analistas e bancos usam os números apresentados para calcular covenants, múltiplos de valuation e decisões de crédito. A mudança na apresentação, portanto, pode mudar a percepção de valor da sua empresa sem que ela tenha mudado nada operacionalmente.

Quem é afetado

Toda entidade que prepara demonstrações financeiras em IFRS: companhias abertas (B3), empresas de grande porte pela Lei 11.638/07, subsidiárias brasileiras de multinacionais com reporting em IFRS, instituições financeiras reguladas pelo BACEN, e cooperativas e seguradoras que já seguem o padrão internacional. Empresas em Simples Nacional e Lucro Presumido que usam BR GAAP simplificado não são afetadas diretamente, mas podem ter fornecedores ou clientes que solicitarão demonstrações adequadas.

As três mudanças centrais que você precisa entender

1. Cinco categorias obrigatórias na DRE

A IFRS 18 exige que todas as receitas e despesas sejam classificadas em cinco categorias predefinidas. Não é uma sugestão — é obrigatório. As categorias são:

Dessa estrutura nascem dois subtotais obrigatórios que toda DRE passa a exibir: Lucro Operacional (resultado da categoria operacional) e Lucro antes de Financiamento e Tributos sobre o Lucro (equivalente econômico do EBIT tradicional). Esses subtotais padronizados permitem que investidores comparem empresas de setores e países diferentes com a mesma régua — algo que hoje é impossível porque cada empresa define seu próprio "lucro operacional".

2. MPMs — as métricas gerenciais passam a ser auditadas

Aqui está talvez a mudança mais impactante. As chamadas Management-defined Performance Measures (MPMs) — em português, Medidas de Desempenho da Administração — agora fazem parte das demonstrações financeiras auditadas.

Na prática, significa que métricas como EBITDA Ajustado, Lucro Recorrente, Resultado Core, EBIT antes de itens não recorrentes ou qualquer outra medida que a empresa divulga externamente (releases trimestrais, apresentações a investidores, site de RI) precisa ser:

  1. Divulgada em nota explicativa específica;
  2. Definida com critério claro e consistente;
  3. Reconciliada com um subtotal da DRE prescrito pela norma;
  4. Auditada pelo auditor independente.

Historicamente, essas métricas gerenciais viviam em "território cinza" — apareciam em apresentações, mas não tinham passagem estrita pela auditoria. A IFRS 18 fecha essa porta. Se sua empresa divulga EBITDA Ajustado, esse EBITDA Ajustado precisa estar conciliado com o Lucro Operacional da DRE, e o auditor vai verificar essa reconciliação.

3. Novos princípios de agregação e desagregação

A IFRS 18 traz diretrizes rígidas para evitar o uso abusivo da rubrica "Outros". Itens materiais não podem mais ser escondidos em linhas genéricas. Se uma linha atinge determinada relevância — medida por critérios quantitativos e qualitativos — ela precisa ser destacada na DRE ou detalhada em nota explicativa.

Também há nova orientação sobre despesas operacionais por natureza versus por função. A empresa deve escolher a apresentação mais informativa e, se optar por função (ex: "Custo dos Produtos Vendidos"), precisa fornecer desagregação adicional por natureza em nota explicativa (ex: quanto daquele CPV é salário, depreciação, matéria-prima etc.).

Cronograma realista de implantação

A ilusão mais perigosa é achar que a IFRS 18 começa em 2027. Na prática, o projeto bem-sucedido começa em 2025 e tem entregas concretas ao longo de 2026. Este é o cronograma que recomendamos:

2º semestre de 2025 a 1º trimestre de 2026

Fase 1 — Diagnóstico de impacto

Avaliação técnica profunda: mapear a estrutura atual da DRE, identificar as MPMs utilizadas hoje, analisar se a empresa se enquadra em atividades específicas (investimento em participações ou provisão de financiamento a clientes — que demandam tratamento diferenciado), e verificar o impacto potencial em covenants bancários e contratos de performance atrelados a métricas contábeis. Duração típica: 2 a 4 semanas.

1º e 2º trimestres de 2026

Fase 2 — Desenho da nova apresentação

Definição dos subtotais, reclassificação de cada conta nas cinco categorias, tratamento específico de itens "híbridos" (variação cambial de operacional vs. financiamento, juros capitalizados, equivalência patrimonial), redesenho do plano de contas com tags de categoria, e desenho das novas notas explicativas — incluindo a nota de MPMs, que é nova. Duração: 3 a 4 semanas de trabalho concentrado.

Ao longo de 2026

Fase 3 — Adequação de sistemas e teste paralelo

Configuração do ERP ou da camada de consolidação (SAP, Oracle, Protheus, LucaNet, Tagetik, Accountfy) com os novos códigos de categoria. O trabalho pode e deve ser feito na camada de reporte, não na escrituração contábil — isso evita reescrever milhões de lançamentos históricos. Em paralelo, o exercício de 2026 deve ser fechado duas vezes: uma na IAS 1 vigente (para publicação) e outra na IFRS 18 (para o comparativo).

4º trimestre de 2026

Fase 4 — Validação com auditoria

Apresentação dos resultados-piloto ao auditor independente (KPMG, EY, PwC, Deloitte, BDO, Grant Thornton, Mazars) para alinhamento prévio. Este passo é crítico: corrigir uma classificação errada antes da publicação oficial custa pouco; corrigir depois do fechamento gera ressalva e retrabalho. Separar ao menos 30 dias para esta validação.

1º trimestre de 2027

Fase 5 — Publicação oficial

Primeira demonstração financeira sob IFRS 18, incluindo o exercício de 2026 restated. Preparação da nota de transição IAS 1 → IFRS 18 (obrigatória no primeiro ano), comunicação ao mercado sobre os impactos nas métricas divulgadas, e treinamento final das equipes de controladoria, FP&A e RI.

Checklist prático: você está preparado?

Use esta lista para autoavaliar o estágio atual da sua empresa. Se não conseguir marcar todas as caixas até o final de 2025, considere contratar apoio especializado.

Os erros mais comuns que observamos

Erro 1: tratar IFRS 18 como projeto de TI

A parametrização do sistema é consequência, não causa. Se a equipe de TI começar a configurar a ferramenta antes de ter os critérios de classificação definidos pela controladoria, o resultado é retrabalho caro. A ordem correta é: controladoria define as regras, TI as implementa.

Erro 2: subestimar o impacto em covenants

Muitos contratos de dívida definem covenants usando termos como "EBIT" ou "Lucro Operacional" sem definir exatamente como eles são calculados. Com a IFRS 18, esses termos passam a ter definição padronizada — e o valor calculado pode ser diferente do que está na prática hoje. Revise contratos de dívida agora; renegociar um covenant antes do vencimento é muito mais fácil do que pagar um waiver emergencial.

Erro 3: deixar as MPMs para o fim

A governança das MPMs é trabalhosa. Cada medida gerencial divulgada externamente precisa ter metodologia documentada, aprovação formal da administração, e reconciliação auditável. Empresas que deixam isso para o quarto trimestre de 2026 chegam ao fechamento sem tempo de defender suas métricas junto à auditoria.

Erro 4: tentar resolver na escrituração contábil

Reclassificar milhares (ou milhões) de lançamentos históricos é traumático e desnecessário. A abordagem correta é adaptar a camada de reporte — o balancete analítico que alimenta as demonstrações financeiras. Regras de mapeamento bem desenhadas resolvem 95% dos casos sem mexer em um único lançamento da escrituração.

IAS 1 vs. IFRS 18: o que muda no dia a dia

Aspecto IAS 1 (atual) IFRS 18 (a partir de 2027)
Subtotais da DRE Livres — cada empresa define os seus Dois obrigatórios (Operacional e antes de Financiamento/Tributos)
Classificação de itens Flexível, com princípios gerais Cinco categorias predefinidas e obrigatórias
EBITDA Ajustado e similares Divulgação não regulada Divulgação, reconciliação e auditoria obrigatórias
Linha "Outros" Aceitável para itens menores Estritamente regulamentado; itens materiais devem ser destacados
Despesas operacionais Por natureza OU por função, sem desagregação Por natureza, função ou mista; se por função, desagregação adicional obrigatória
Aplicação retrospectiva Completa: 2026 deve ser restated

Próximos passos

Se sua empresa ainda não iniciou o diagnóstico IFRS 18, o último momento confortável para começar é o segundo semestre de 2026. Projetos iniciados no primeiro semestre de 2026 conseguem o comparativo sem stress. Projetos iniciados no último trimestre de 2026 entram em modo emergencial.

O diagnóstico inicial leva 2 a 4 semanas e tem custo modesto em relação ao tamanho do risco evitado. É o investimento mais importante que uma área financeira de empresa de grande porte pode fazer no ciclo 2026–2027.

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Tiago Wilke

Sócio-Diretor · WLK Advisory

Mais de 20 anos de trajetória em Contabilidade, Tributário, FP&A e M&A. Experiência em companhias abertas, multinacionais e auditorias Big Four (EY, KPMG, PwC) nos setores de metalurgia, mineração, química, saúde e serviços.